sábado, 21 de fevereiro de 2009

Telefonema.

Sentada em frente à tela do computador, ela procurava fazer algo que lhe distraísse: ler qualquer coisa que julgasse interessante, ou mesmo assistir à busca pelo samurai que cheira a girassol. Por um momento parou. Tomou um gole d'água, esticou as costas preguiçosas em algo que poderia lembrar um bocejo curto, inconcluído. Fitou o tronco de árvore recostado ao muro que cercava a casa e a separava dos vizinhos. A luz, que ultrapassava a linha de madeira da janela e atingia tanto o rosto de Alice quanto (quase)todos os objetos do cômodo, era amarela, entardecente. Ela então subiu para juntar os lençóis que deveria colocar na máquina, como Joana havia lhe pedido.
Bem à frente da varanda, acima da mangueira, um beija-flor voava e pairava; fazia tudo novamente, repetidas vezes, cenário e personagens banhados naquele feixe amarelado ainda insistente em invadir e colorir suavemente as paredes da casa, além do céu de nuvens escurecidas. Alice selou as portas da varanda e tratou de pegar os lençóis - um possuía a cor daquela tarde, enquanto o outro era azul, o que a fazia lembrar dele - e de repente, pensando no azul, notou não importar a direção para a qual olhasse, em todas haveria a cor que transformaria qualquer pensamento dela em um só: Rodrigo. O copo onde tomara o gole d'água, o chinelo que calçava, a calça que vestia, o sabão em pó e o amaciante que usara na máquina para lavar os lençóis - inclusive o azul que carregara há pouco. O fato de haver tanto azul em sua cabeça lembrava constantemente à Alice de que Rodrigo ainda não ligara, como prometera ao despedir-se na noite anterior. Mas ela não estava chateada com isso - talvez um pouco triste - e imaginava se ele não poderia ter passado o dia na casa de Bruno, ou na de Marcelo. Sim, esse seria o motivo da não-ligação.
Passava das 17:30 e a coloração amarela já se esvaíra, dando lugar a uma cor indefinida - de aparência seca e sem vida - que logo se tornaria o negro da noite.
19:14. Alice agora estava repleta de uma sensação de peso, e é bem provável que tenha ido tomar um banho para se livrar disso. Tinha em mente que ele não ligaria ainda naquela noite, mas recusou o convite para sair - que Joana lhe fizera mais cedo -, na esperança de ouvir o toque do telefone e, logo em seguida, a voz de Rodrigo.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Vômito.

Alice queria vomitar, vomitar, vomitar.
As palavras. As vísceras. Tudo.

Às vezes

eu me sinto tão idiota...