terça-feira, 31 de agosto de 2010

Butterflying

Eu acordei. E havia algo de diferente naquele dia. Algo no ar. Sim, definitivamente, era no ar; ele estava mais leve. Como de costume, vesti aquela mesma calça jeans, uma camiseta qualquer e os tênis. Tomei café e escovei devidamente os dentes. Desci as escadas do pequeno edifício - dois andares - e me pus na rua. Deixei meu corpo ser levado pelo vento, e acho que ele já conhecia o meu caminho de rotina até a universidade. Não percebi de início, mas minha trajetória fora mudada. Olhei em volta e a cidade parecia vazia. Não, não parecia apenas. Era como se os humanos houvessem tirado o dia para deixar a natureza como está, sem tirar nem pôr em canto algum. Quando o vento parou e eu me deparei com o que parecia ser o topo de uma grande escadaria, eu vi: minha rota fora alterada. Dessa vez, não foi o vento que me guiou. Uma planta trepadeira enroscou meus dedos e, em seguida, seguiu na direção da escada, entortando o caule pelo corrimão - minha mão atada à uma de suas gavinhas. A tal escada começou, então, a tomar forma. Era uma enorme espiral, que adentrava um tipo de caverna muito profunda aberta no chão - nunca vi nada igual por ali. Olhei para baixo. Vertigem. Não tem fim? A trepadeira parou, e eu também; ainda havia muitos degraus para baixo. Silêncio. O ar - ainda leve - me tranquilizava. Uma borboleta pousou em meu ombro, como se quisesse dizer algo, mas em seguida voou. O barulho rompeu, aos poucos, o silêncio - algo se aproximava. Asas. Os morcegos saíram, aos montes, de dentro da enorme abertura rodeada pela escada. Rodopiaram no alto e mergulharam, com velocidade, em direção à minha cabeça. O ar pesou. Quis sentir medo, mas era tarde: os pequenos animais pretos haviam coberto meu corpo e mordiscaram minha pele até que eu, em desespero, caísse. Eles já não estavam em mim, mas ao meu redor, acompanhando-me naquele abismo aparentemente sem fim. A borboleta voava, delicada, ao lado do meu corpo em queda livre. Então eu vi, abaixo de mim, corpos... Humanos!
Eu acordei. E havia algo de diferente naquele dia. Algo no ar. Sim, definitivamente, era no ar; ele estava mais leve. Vesti aquela mesma calça jeans, uma camiseta qualquer e os tênis. Tomei café e escovei os dentes de qualquer jeito. Desci as escadas do pequeno edifício - dois andares - e me pus na rua. Tomei meu caminho e, na base de uma pequena escadaria, lá estava ela. A borboleta, morta.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Epílogo

Se eu pudesse voltar àquele dia de outono, no balanço, não mudaria nada. Ela tão feliz com a proposta de emprego fora do país e eu tão devastada com meu câncer no estômago. Eu quis contar, mas, aqueles olhos que sempre me decifravam, deixaram minha angústia passar despercebida. Então eu sorri. Deixei todo o meu amor para Camille naquele último sorriso. Ela se foi e eu me entreguei à doença - aos vômitos, ao cansaço, às náuseas. Por um momento, as dores cessaram e ela me veio à mente. Os olhos negros cheios de outono - aquele outono -, por trás da fumaça, me envolviam com amor - e um quê de esperteza. A morte chegou sem dor.
Meu nome é Ana. Eu agora sou cinzas... Ao vento.

sábado, 21 de agosto de 2010

Capítulo V (ou Do balanço)

Lembro-me de como a moldura acolhia o vidro, dividindo-o em quatro pequenos quadrados. Eu estava ali, sentada; meu corpo estava. Minha mente, preenchida pela recente má notícia, vislumbrava a janela - e era como se houvesse um outro mundo dentro dela. Lembro-me do balanço, da sensação do vento no meu rosto, das folhas caindo - amarelo-alaranjadas - e do céu escurecendo, da angústia que era esperar. Fechei os olhos, mas não pude deixar de sentir o perfume se aproximar. Ela me olhava, com carinho, e eu quis contar. Vou morrer. Mas preferi silenciar, na esperança de que ela percebesse. Não percebeu. Conversamos, mais uma vez, sobre a partida dela, sobre o tempo que eu teria de esperar - e que eu não possuía. No balanço, um beijo, adeus. Lembro-me bem da figura dela se afastando, cada vez mais longe. Vieram, então, as trovoadas.