Aquele perfume doce sempre vinha me preencher a mente, insistindo em lembrar-me dela - dos maravilhosos dias que tivemos - e como sua chegada mudara minha vida por completo. Ela e suas madeixas ruivas, naturais, a pele tão alva quanto a neve que caía lá fora, bochechas rosadas e, ah!, os olhos verdes. Foi única enquanto a tive em meus braços, no preparo de receitas mirabolantes, imaginando como seriam as vidas dos que passavam pelas ruas, e até rindo do chaveiro dela - uma chupeta surrada, de quando era pequena. Então, um dia, ela se foi. Deixou para trás apenas um bilhete na escrivaninha. Não posso mais. Adeus. O perfume inundara o apartamento. Foi a última lembrança que guardei dela. Perguntei-me o motivo do abandono... talvez minha bagunça e as roupas que deixava espalhadas - e a toalha molhada na cama! -, mas nada disso parecia ser o suficiente para que ela simplesmente partisse. Mas, ao lembrar de tudo isso, eu não estava amargurado ou qualquer coisa; eu estava feliz, porque ela me ensinou e fortaleceu de uma maneira que eu só poderia ficar bem, independentemente do final. Aquela moça de bochechas rosadas foi a melhor coisa que poderia acontecer na minha vida, e o meu último pensamento antes de cerrar os olhos para sempre, aos 96. Ela foi o meu milagre.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Te confundo
Aqui, caro leitor, você se encontrará perdido. Entre o real e o imaginário. Aqui, me confundo em meio às personagens.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Segunda-feira (ou O vento)
Violei a tranquilidade daquela sala ao entrar pela janela. Ela estava sentada próxima à minha, digamos, porta de entrada, escrevendo. Me aproximei calma e docemente de seu corpo pequeno e belo, sem provocar ruído algum. Acomodou-se graciosamente na cadeira, antes de voltar a se concentrar na escrita. Já bem próximo dela, brinquei com seus cabelos - ela então fechou os olhos -, acariciei sua nuca e ela inclinou, levemente, a cabeça para trás. Sussurrei em seu ouvido e ela sorriu, deliciando-se com meu uivo - formando um caracol dentro de sua cabeça - e com minhas carícias em seu braço. Então, como se tomada por uma grande onda inspiradora, ela se pôs a escrever novamente, enquanto eu bagunçava e entrelaçava seus fios de cabelo entre minhas rápidas piruetas. Ela escrevia sobre mim: o vento.
Tambores
A música era tão alta em meus ouvidos, que eu não podia ouvir o que se passava ao meu redor - eu apenas via. Senti gotículas tocarem, suaves, meu rosto. Olhei ao redor: um jogava, três conversavam - acho que olharam para mim em algum momento, talvez achando engraçado o quanto eu parecia perdida, fora do planeta - outra reclamava e gesticulava fervorosamente sobre algo - ou alguém -, enquanto a última ouvia atentamente. Então eu vi a chuva, que caía sem pressa e pareceu acompanhar a tranquilidade daquela parte da música. Fechei os olhos. Quando os abri novamente, estavam todos rindo - mas não de mim. E me senti tão bem por eles estarem felizes. A chuva aumentara agora, e o céu estava cinza, mas era como se tudo estivesse em perfeita harmonia. Os pingos, os risos mudos, eu. Tudo regido pelos tambores da música.
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