Ótimo. Estava simplesmente tudo ótimo até que ela começou a implicar: "Você já passou tempo demais sentada no computador, já desligou? Você sabe que não pode ficar sem se movimentar." Argh, Alice simplesmente odiava tudo aquilo. Aquele ar de implicância de sempre, com um de preocupação que só surgiu depois da descoberta de mais dois cálculos, um em cada rim, naquela mesma tarde. O mais incrível era que, em pouco tempo, as duas já estavam rindo juntas de uns óculos que eram colocados na cadelinha - e ela estava em cima da cama, como sempre. Joana. Alice realmente a amava demais; e lembrou-se de algo ocorrido há uns poucos dias...
» Enquanto dona Joana sentia dores no coração e estava provavelmente chateada por a filha ficar mais uma vez até tarde naquele inferno de computador, Alice - sentada na beirada da cama de casal onde estava deitada a mãe - virou o rosto, disfarçou um choro trancado que tentava explodir de algum modo, e desejou que aquela dor pudesse ser passada para ela. Era extremamente preciso que a dor no peito de sua mãe passasse para ela, a filha que deveria ser punida. Vai passar. Então, por um momento, Alice achou que as palavras de Joana se referiam àquilo que se passava em seu pensamento; a dor finalmente passaria e a puniria! Chegou a sentir uma pontada no peito - talvez por mera ilusão, talvez em razão de sua grande vontade e sentimento de culpa - e alegrou-se por estar dando certo, mas percebeu que na verdade sua mãe se referia à dor. A dor iria passar, sair, parar. Alice deixou seus pensamentos e sua falsa dor de lado e fez massagem nas pernas daquela mulher a quem tanto amava e devia. «
Lembrando-se do que ocorrera naquele dia, Alice procurou no armário por outro livro para ler - estava sedenta de palavras - e então parou para ler a folha de papel ofício em que Rodrigo lhe escrevera da última vez. Por um instante, voltou àquele momento, na tarde de quinta-feira. Sorriu. Pegou o livro e desceu, dirigiu-se até o computador, abriu seu programa de reprodução de músicas, digitou, pensou e riu-se: você também. Em seguida sorriu novamente. Rodrigo a havia simplesmente viciado na banda da qual ela já gostava, e conhecia muito bem desde criança. De uns tempos para cá, qualquer coisa que lembrasse o rapaz seria muitíssimo bem-vinda e motivo de vício para ela. Mas essa estória não é sobre Rodrigo.
Alice lembrou-se mais uma vez da dona Joana - provavelmente já dormindo lá em cima -, decidiu-se por ler. Depois escreveu. Acredite, preciso escrever para me sentir bem, para dormir e acordar bem, pensou. E realmente precisava. Ela precisava despejar tudo o que guardava em silêncio, somente para si - por escolha própria. Deve ter provavelmente ouvido apenas umas três músicas várias vezes antes de desligar tudo e ir dormir. Achou até meio engraçado o fato de que suas noites - ou madrugadas - têm terminado quase todas da mesma maneira nos últimos tempos. Assim era também com o que escrevia. Talvez ela quisesse mudar, ou estava bem assim. Alice queria estar só; por vezes só a dois. E que Joana estivesse no único lugar onde poderia estar plenamente feliz, satisfeita e sem dores: seu país de origem.
» Enquanto dona Joana sentia dores no coração e estava provavelmente chateada por a filha ficar mais uma vez até tarde naquele inferno de computador, Alice - sentada na beirada da cama de casal onde estava deitada a mãe - virou o rosto, disfarçou um choro trancado que tentava explodir de algum modo, e desejou que aquela dor pudesse ser passada para ela. Era extremamente preciso que a dor no peito de sua mãe passasse para ela, a filha que deveria ser punida. Vai passar. Então, por um momento, Alice achou que as palavras de Joana se referiam àquilo que se passava em seu pensamento; a dor finalmente passaria e a puniria! Chegou a sentir uma pontada no peito - talvez por mera ilusão, talvez em razão de sua grande vontade e sentimento de culpa - e alegrou-se por estar dando certo, mas percebeu que na verdade sua mãe se referia à dor. A dor iria passar, sair, parar. Alice deixou seus pensamentos e sua falsa dor de lado e fez massagem nas pernas daquela mulher a quem tanto amava e devia. «
Lembrando-se do que ocorrera naquele dia, Alice procurou no armário por outro livro para ler - estava sedenta de palavras - e então parou para ler a folha de papel ofício em que Rodrigo lhe escrevera da última vez. Por um instante, voltou àquele momento, na tarde de quinta-feira. Sorriu. Pegou o livro e desceu, dirigiu-se até o computador, abriu seu programa de reprodução de músicas, digitou, pensou e riu-se: você também. Em seguida sorriu novamente. Rodrigo a havia simplesmente viciado na banda da qual ela já gostava, e conhecia muito bem desde criança. De uns tempos para cá, qualquer coisa que lembrasse o rapaz seria muitíssimo bem-vinda e motivo de vício para ela. Mas essa estória não é sobre Rodrigo.
Alice lembrou-se mais uma vez da dona Joana - provavelmente já dormindo lá em cima -, decidiu-se por ler. Depois escreveu. Acredite, preciso escrever para me sentir bem, para dormir e acordar bem, pensou. E realmente precisava. Ela precisava despejar tudo o que guardava em silêncio, somente para si - por escolha própria. Deve ter provavelmente ouvido apenas umas três músicas várias vezes antes de desligar tudo e ir dormir. Achou até meio engraçado o fato de que suas noites - ou madrugadas - têm terminado quase todas da mesma maneira nos últimos tempos. Assim era também com o que escrevia. Talvez ela quisesse mudar, ou estava bem assim. Alice queria estar só; por vezes só a dois. E que Joana estivesse no único lugar onde poderia estar plenamente feliz, satisfeita e sem dores: seu país de origem.