quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Alice e Joana.

Ótimo. Estava simplesmente tudo ótimo até que ela começou a implicar: "Você já passou tempo demais sentada no computador, já desligou? Você sabe que não pode ficar sem se movimentar." Argh, Alice simplesmente odiava tudo aquilo. Aquele ar de implicância de sempre, com um de preocupação que só surgiu depois da descoberta de mais dois cálculos, um em cada rim, naquela mesma tarde. O mais incrível era que, em pouco tempo, as duas já estavam rindo juntas de uns óculos que eram colocados na cadelinha - e ela estava em cima da cama, como sempre. Joana. Alice realmente a amava demais; e lembrou-se de algo ocorrido há uns poucos dias...
» Enquanto dona Joana sentia dores no coração e estava provavelmente chateada por a filha ficar mais uma vez até tarde naquele inferno de computador, Alice - sentada na beirada da cama de casal onde estava deitada a mãe - virou o rosto, disfarçou um choro trancado que tentava explodir de algum modo, e desejou que aquela dor pudesse ser passada para ela. Era extremamente preciso que a dor no peito de sua mãe passasse para ela, a filha que deveria ser punida. Vai passar. Então, por um momento, Alice achou que as palavras de Joana se referiam àquilo que se passava em seu pensamento; a dor finalmente passaria e a puniria! Chegou a sentir uma pontada no peito - talvez por mera ilusão, talvez em razão de sua grande vontade e sentimento de culpa - e alegrou-se por estar dando certo, mas percebeu que na verdade sua mãe se referia à dor. A dor iria passar, sair, parar. Alice deixou seus pensamentos e sua falsa dor de lado e fez massagem nas pernas daquela mulher a quem tanto amava e devia. «
Lembrando-se do que ocorrera naquele dia, Alice procurou no armário por outro livro para ler - estava sedenta de palavras - e então parou para ler a folha de papel ofício em que Rodrigo lhe escrevera da última vez. Por um instante, voltou àquele momento, na tarde de quinta-feira. Sorriu. Pegou o livro e desceu, dirigiu-se até o computador, abriu seu programa de reprodução de músicas, digitou, pensou e riu-se: você também. Em seguida sorriu novamente. Rodrigo a havia simplesmente viciado na banda da qual ela já gostava, e conhecia muito bem desde criança. De uns tempos para cá, qualquer coisa que lembrasse o rapaz seria muitíssimo bem-vinda e motivo de vício para ela. Mas essa estória não é sobre Rodrigo.
Alice lembrou-se mais uma vez da dona Joana - provavelmente já dormindo lá em cima -, decidiu-se por ler. Depois escreveu. Acredite, preciso escrever para me sentir bem, para dormir e acordar bem, pensou. E realmente precisava. Ela precisava despejar tudo o que guardava em silêncio, somente para si - por escolha própria. Deve ter provavelmente ouvido apenas umas três músicas várias vezes antes de desligar tudo e ir dormir. Achou até meio engraçado o fato de que suas noites - ou madrugadas - têm terminado quase todas da mesma maneira nos últimos tempos. Assim era também com o que escrevia. Talvez ela quisesse mudar, ou estava bem assim. Alice queria estar só; por vezes só a dois. E que Joana estivesse no único lugar onde poderia estar plenamente feliz, satisfeita e sem dores: seu país de origem.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Silêncio a dois.

No fim, ficar deitada de olhos cerrados - por vezes abertos para encontrarem os dele -, foi a melhor coisa daquele domingo nada chuvoso, e quente. Naquele momento, Alice não esperava dele uma conclusão desconhecida. Enquanto Rodrigo, por outro lado, nem imaginava que nela houvesse um constante ato de apaixonar-se como se fosse a primeira vez que o visse. Mesmo com todo aquele sol, havia tempestade. Elétrica. Ao som do harmonioso silêncio.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Dia de verão.

Abriu os olhos. Seus pés estavam frios demais e chovia lá fora. O ventilador ligado. Sentia-se preguiçosa, não queria levantar, mas o frio a convenceu do contrário. Levantou-se, mas apenas para desligar o ventilador - estava quase no máximo - e voltou à cama, onde a yorkshire esperava para se acomodar novamente em seus pés. O relógio devia estar marcando umas dez e meia ou menos, e ela dormiu - por puro capricho, pois lhe faltava o sono.
Acordou finalmente com uma bronca da mãe, dizendo já ser quase meio-dia - e de fato, eram 11:59. Alice se sentou e assim permaneceu por um tempo, notando no chão o chinelo novo, azul carbono. Foi ao banheiro e depois deitou-se novamente, dando atenção àquela bolinha de pêlos ainda sobre a cama. Decidiu-se então por levantar e ler, esperando pelo almoço - que não demorou a ficar pronto. No fim, comeu (ou tomou) três colheradas de leite condensado, subiu as escadas até o sofá e tornou a ler. Lá fora ainda chovia. Chovia e parava, depois chovia de novo. E trovejava.
Leu a tarde inteira quatorze capítulos do livro que Rodrigo lhe emprestara. Estava feliz que finalmente conseguira empenhar-se em ler algo, e não apenas perder o dia sem fazer absolutamente nada que lhe fosse útil. Alice leu, e só parou com uma súbita vontade de comer doce. Procurou por uma receita e foi-se para a cozinha, onde fez um bolo de chocolate com cobertura também de chocolate; ficou bom. Jantou com sua mãe e foi com ela assistir ao último episódio da novela.
Mais tarde, no computador, notou que: como passara a tarde lendo e depois entretera-se com bolo e novela, nem mesmo banho tomara naquele dia. Decidiu ir para o chuveiro - já passava da meia-noite. Depois pegou um bloco de folhas em branco, um lápis recém apontado, o livro de Rodrigo e o celular; deitou-se na cama - a porta do quarto fechada e o ventilador desligado em razão do frio daquela noite - e pôs-se a escrever seu dia, como se sentia, esperando que aquela chuva de verão não atravessasse outro amanhecer, e que viesse novamente o sol forte de sorriso amarelado e o céu azul com suas nuvens de algodão. Mas cansou, foi dormir. No relógio marcavam 02:07.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Madrugada.

00:51. Foi a última vez que ela olhou a hora antes de desligar o celular. Deus sabe que horas eram quando ela resolveu sentar-se na cama - depois de muito pensar e chorar - e ouviu alguns poucos latidos do cachorro do vizinho. Levantou-se, pegou sua agenda do ano que passou - que usava como pseudo-diário -, um lápis desapontado, sentou-se no chão e acendeu a luz do ventilador, como se fosse ajudá-la a enxergar realmente algo. Escreveu o mais forte que pôde e se aproximou ao máximo da luz alaranjada artificialmente fraca, sem se importar realmente se estava ou não prejudicando a própria visão.
Pensou ter ouvido sua mãe acordar. Desligou rapidamente a luz e levantou-se; mas ouviu-a roncar antes que tivesse tempo de entrar no banheiro, fechar a porta e acender a luz do espelho na parede - de fato bem melhor que a do ventilador. Sentou-se sobre a tampa do sanitário - o da descarga quebrada -, apoiou a agenda em sua perna direita e continuou a escrever. Já estava na metade da segunda pequena folha, com sua letra bem maior que a de costume.
Não sabia exatamente o que sentia; raiva com saudade, frustração, tristeza... Nem parecia a garota tão sorridente e feliz de dois dias antes. Quem dera ela pudesse ser agora aquela pirata e furtá-lo para si. Mas seu braço já começara a querer parar, e ela sentia calor no banheiro completamente fechado. Parou. Fechou a agenda, saiu do banheiro, colocou seus dois objetos acompanhantes - lápis e agenda - no lugar onde os pegara, deitou-se, olhou para o tempo que não sabia qual era, pensou. Sabe-se lá a que horas ela finalmente adormeceu. Também de hora alguma Alice queria saber; só a de vê-lo novamente.

Pausa para ouvir.

para quem quer se soltar, invento o cais
invento mais que a solidão me dá
invento lua nova a clarear
invento o amor
e sei a dor de me lançar

eu queria ser feliz
invento o mar
invento em mim o sonhador

para quem quer me seguir, eu quero mais
tenho o caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar

Cais - Elis

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pirata.

Em momentos de desencontros 'internetais' como este, e ainda em meio às suas dores mensais, Alice tinha vontade de cercá-lo e furtar-lhe o coração. Levar consigo o que, nele, ela via de mais precioso: o ser que palpitava descompassadamente verde no peito do azulado rapaz. Não por raiva; pilharia por saudade. Ah!, e como ela desejava fazê-lo já; e como deseja! A pirada pirata do amor!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Vestido.

No primeiro dia de mais um entre os tantos anos em sua vida, o vestido que usara há dois dias ainda tinha o perfume do seu adorado rapaz. Queria ela que a fragrância continuasse intacta tal qual suas lembranças, tecidas com fios de saudade. E ainda assim, até que o dia findado fosse, ela sequer tiraria o vestido. Alice, teimosa, não tiraria.