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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Epílogo

Se eu pudesse voltar àquele dia de outono, no balanço, não mudaria nada. Ela tão feliz com a proposta de emprego fora do país e eu tão devastada com meu câncer no estômago. Eu quis contar, mas, aqueles olhos que sempre me decifravam, deixaram minha angústia passar despercebida. Então eu sorri. Deixei todo o meu amor para Camille naquele último sorriso. Ela se foi e eu me entreguei à doença - aos vômitos, ao cansaço, às náuseas. Por um momento, as dores cessaram e ela me veio à mente. Os olhos negros cheios de outono - aquele outono -, por trás da fumaça, me envolviam com amor - e um quê de esperteza. A morte chegou sem dor.
Meu nome é Ana. Eu agora sou cinzas... Ao vento.

sábado, 21 de agosto de 2010

Capítulo V (ou Do balanço)

Lembro-me de como a moldura acolhia o vidro, dividindo-o em quatro pequenos quadrados. Eu estava ali, sentada; meu corpo estava. Minha mente, preenchida pela recente má notícia, vislumbrava a janela - e era como se houvesse um outro mundo dentro dela. Lembro-me do balanço, da sensação do vento no meu rosto, das folhas caindo - amarelo-alaranjadas - e do céu escurecendo, da angústia que era esperar. Fechei os olhos, mas não pude deixar de sentir o perfume se aproximar. Ela me olhava, com carinho, e eu quis contar. Vou morrer. Mas preferi silenciar, na esperança de que ela percebesse. Não percebeu. Conversamos, mais uma vez, sobre a partida dela, sobre o tempo que eu teria de esperar - e que eu não possuía. No balanço, um beijo, adeus. Lembro-me bem da figura dela se afastando, cada vez mais longe. Vieram, então, as trovoadas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Capítulo IV (ou Minha)

Era noite. Fazia frio e chovia lá fora. Já meu corpo, estava quente. Ela estava ao meu lado. O braço dela me enlaçava a cintura numa tentativa impossível, eu sabia, de aproximar mais ainda nossos corpos. O perfume - francês como seu nome - preenchia cada espaço vazio daquele quarto, e tomava meus pulmões, deixando-me embriagada. Não lembro quantas vezes me perguntei se aquilo era mesmo verdade - e não mais outro sonho -, até que um trovão, daqueles que ela tanto amava, me trazia de volta à realidade. Lembro, sim, de cada detalhe. Todos os gestos e trejeitos dela me encantavam... até aquela notável ânsia em acender um cigarro, contida com impaciência, me atraía. Por vezes, nossas mãos se encontravam e eu me sentia arrepiar. Estava realmente acontecendo. Ela ali, comigo. Naquele dia, debaixo das cobertas, meus tantos sonhos foram materializados. E, finalmente, eu podia chamá-la de minha.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo III (ou Em chamas)

Acendeu um cigarro - era a única coisa que eu odiava nela - e encarou o chão por um momento. Num outro, já olhava para mim. Seus olhos negros, por vezes, pareciam perdidos em meio à fumaça; tão provocantes. Estávamos de frente uma para a outra, as amigas nos faziam uma indesejada companhia. Lembro-me de que queria parar o que quer que estivéssemos fazendo e agarrá-la, tê-la - meu coração ardia, como o cigarro. Minhas mãos suavam, minhas pernas tremiam... As outras perguntaram-me se estava tudo bem. Sim. Foi então que eu vi. Vi aquele sorriso de lado, maldoso, disfarçado por trás da fumaça. Ela sabia o que eu tanto tentava não demonstrar. De algum modo, ela sabia, descobriu. Eu a queria. E disso ela sabia melhor do que ninguém.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Capítulo II (ou Sonho)

Abro os olhos. Sinto dedos pousando levemente sobre meus pés. Sinto-os subir pelas minhas pernas, transformando-se em mãos fortes apertando minhas coxas. Não vejo nada - está tudo escuro -, mas o perfume francês não me engana: é ela. É Camille que me faz sentar na cama, me abraça forte e, enquanto beija meu pescoço, arranha minhas costas por baixo do pijama. O beijo migra suavemente para meus lábios. Minhas mãos tocam seu rosto e cabelos macios. Arrisco uma mordida no pescoço e ela parece gostar. Não acredito que isso tudo esteja acontecendo. Então, de repente, o perfume - tão nítido aos meus sentidos - começa a esvair-se e eu já não sinto tão bem o corpo dela no meu... Eu a quero, eu a quero, sim... !
Acordei. O despertador tocava.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Capítulo I (ou Nome)

Em frente ao espelho, nua, no banheiro. Minhas roupas jogadas no chão, encharcadas pela chuva que caía lá fora. Entrei no chuveiro e lembrei: na universidade, junto às amigas, uma desconhecida fala. É quarta-feira, faz frio. Aproveitando a trégua dos céus, as outras garotas se vão. Ficamos eu e ela. Ela com seus olhos negros e brilhantes, encantadores. Conversamos.
Eu de peixes, ela de câncer. Se eu fosse, de fato, um peixe, poderia afirmar que caíra em suas garras. Não sei em qual momento. Talvez num conjunto deles, naquela única conversa.
Nos despedimos e, enquanto se afasta, lembra-se de dizer-me o nome: Camille.
Ouvi uma trovoada. Voltei a mim. Entrei no chuveiro, onde cada gota parecia ressoar o nome dela. Camille          camille                      c a m i l l e.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Prólogo

Se eu tivesse de escolher o que mais gosto nela, escolheria, sem dúvida, os olhos. Negros, tais quais seus cabelos. E se eu tivesse de escolher o momento em que me apaixonei por ela, diria que foi naquela quarta-feira, durante uma conversa sobre trovões, enquanto ela dizia que adorava ouvi-los e sorria - os olhos brilhando. Tarde fria, nublada e trovejante. Do jeito que ela mais gostava e, a partir daí, eu também...