sábado, 11 de fevereiro de 2012

Medo

Ele estava comigo o tempo todo. Era como se eu pudesse senti-lo... As pontas dos dedos finos e frios, tão frios, provocavam em mim arrepios por toda a pele. E calafrios, ah, os calafrios, percorrendo minha espinha do início ao fim, acumulando aquela sensação na minha nuca, brincando com os fios de cabelo soltos atrás da cabeça. Meu corpo se contorcendo numa sensação de insegurança, meus olhos enxergando nada a não ser a escuridão. Lançava os braços a fim de tatear algo, sentia o vazio, e voltava-os junto do corpo. A sombra sufocante atrás de mim, que desaparecia ao me virar - quando me atrevia. Seus olhos negros e sem brilho e sem fundo me espiando onde quer que eu fosse. Minha audição super-estimulada ouvindo coisas que não deveriam existir. E até mesmo uma respiração gelada sobre meu ombro. Ele insistia, insistia em estar sempre ali. Mesmo sendo intangível, eu podia sentir, era físico. O tempo  t o d o... em mim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

E então...

Ela entrou pela porta, aquela bem singela, no cantinho da sala. Esperava não ser reparada, mas não havia nada no mundo que me fizesse não enxergá-la. Olhava, curiosa, por entre os ombros das tantas pessoas ali dentro. Era a mais bela: ruiva, olhos esmeralda e trajava aquele seu vestido florido, de um tecido tão leve e fino quanto sua alva pele. Então, nossos olhos se encontraram, ela corou e, como se espantada em me ver, pôs-se a fugir. Demorei uns bons segundos para ir atrás dela. Lá fora, havia um pequeno bosque. A luz do entardecer brilhou forte em seus cabelos e revelou suas formas delicadas através da transparência do vestido enquanto corria, pés descalços, e deixava escapar algumas risadinhas. Foi em direção ao coração do bosque - sempre gostara de passear por ali e deixar o peso do corpo afundar nas folhas secas - e, ao parar, virou-se para mim. Pude vislumbrá-la por alguns instantes, antes que o brilho de suas esmeraldas começasse a desaparecer, suas maçãs - coradas pela corrida - empalidecessem e uma mancha vermelha aumentasse, maculando suas pequenas flores amarelas em tecido bege, a partir de um ponto próximo ao que eu acreditava ser o estômago. Estava a poucos metros de distância e corri para envolvê-la, mas seu corpo desaparecia como fumaça entre minhas mãos. E então, eu tocava apenas o vazio.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pitangus

Escandaloso, territorialista. Ele sempre investe, com violência, contra os que ousam - mesmo sem querer - perturbar a ordem que estabeleceu a sua volta. Intrusos não são permitidos, nem mesmo bem-vindos. Se necessário, ele junta seu bando para expulsar qualquer um que ultrapasse os limites.
Quando eu era criança, ele me parecia tão dócil, com aquele amarelo vistoso, sulfuroso; sempre bendizendo o nosso encontro, e me guardando. bem-te-vi E hoje, eu o vejo com olhos tão diferentes - vejo seu lado agressivo e tento desvendar seus hábitos. Mas, ainda assim, o amo, por fazer parte da minha vida.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ela

Se faz presente em minhas melhores históriasestórias, meus melhores escritos. E é tudo tão recente para que eu possa afirmar com absoluta certeza. Mas, talvez, caro leitor...

Talvez a morte seja minha musa.

sábado, 4 de junho de 2011

A sombra

No dia em que vi aquela sombra, eu soube, está acabado. Ela me perseguiria por dias e mais dias, e eu nunca teria coragem de olhar para cima e descobrir o que era. Assim fui levando minha vida, seguindo em frente, trabalhando, sempre na mesma rotina, e com o medo logo ao lado - ou seria acima? - porque eu sabia que ela estaria me espiando lá de cima. Mas, incrivelmente, com o tempo - para mostrar como o tempo é coisa incrível -, me acostumei. Tornara-se tão constante em minha vida, que era como se fosse minha companheira, tão conhecida quanto o lugar onde eu morava. E esse foi o meu erro. Deixar que ela estivesse (aparentemente) próxima era a última coisa que poderia acontecer. Porque, um dia, eu olhei. Olhei, finalmente, para cima. E, como se esperasse por esse momento a vida inteira, ela veio até mim, cada vez mais perto - e tudo se foi tão rápido...


Pobre de mim, formiguinha.