Ela entrou pela porta, aquela bem singela, no cantinho da sala. Esperava não ser reparada, mas não havia nada no mundo que me fizesse não enxergá-la. Olhava, curiosa, por entre os ombros das tantas pessoas ali dentro. Era a mais bela: ruiva, olhos esmeralda e trajava aquele seu vestido florido, de um tecido tão leve e fino quanto sua alva pele. Então, nossos olhos se encontraram, ela corou e, como se espantada em me ver, pôs-se a fugir. Demorei uns bons segundos para ir atrás dela. Lá fora, havia um pequeno bosque. A luz do entardecer brilhou forte em seus cabelos e revelou suas formas delicadas através da transparência do vestido enquanto corria, pés descalços, e deixava escapar algumas risadinhas. Foi em direção ao coração do bosque - sempre gostara de passear por ali e deixar o peso do corpo afundar nas folhas secas - e, ao parar, virou-se para mim. Pude vislumbrá-la por alguns instantes, antes que o brilho de suas esmeraldas começasse a desaparecer, suas maçãs - coradas pela corrida - empalidecessem e uma mancha vermelha aumentasse, maculando suas pequenas flores amarelas em tecido bege, a partir de um ponto próximo ao que eu acreditava ser o estômago. Estava a poucos metros de distância e corri para envolvê-la, mas seu corpo desaparecia como fumaça entre minhas mãos. E então, eu tocava apenas o vazio.