quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Milagre

Aquele perfume doce sempre vinha me preencher a mente, insistindo em lembrar-me dela - dos maravilhosos dias que tivemos - e como sua chegada mudara minha vida por completo. Ela e suas madeixas ruivas, naturais, a pele tão alva quanto a neve que caía lá fora, bochechas rosadas e, ah!, os olhos verdes. Foi única enquanto a tive em meus braços, no preparo de receitas mirabolantes, imaginando como seriam as vidas dos que passavam pelas ruas, e até rindo do chaveiro dela - uma chupeta surrada, de quando era pequena. Então, um dia, ela se foi. Deixou para trás apenas um bilhete na escrivaninha. Não posso mais. Adeus. O perfume inundara o apartamento. Foi a última lembrança que guardei dela. Perguntei-me o motivo do abandono... talvez minha bagunça e as roupas que deixava espalhadas - e a toalha molhada na cama! -, mas nada disso parecia ser o suficiente para que ela simplesmente partisse. Mas, ao lembrar de tudo isso, eu não estava amargurado ou qualquer coisa; eu estava feliz, porque ela me ensinou e fortaleceu de uma maneira que eu só poderia ficar bem, independentemente do final. Aquela moça de bochechas rosadas foi a melhor coisa que poderia acontecer na minha vida, e o meu último pensamento antes de cerrar os olhos para sempre, aos 96. Ela foi o meu milagre.

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