domingo, 18 de janeiro de 2009

Dia de verão.

Abriu os olhos. Seus pés estavam frios demais e chovia lá fora. O ventilador ligado. Sentia-se preguiçosa, não queria levantar, mas o frio a convenceu do contrário. Levantou-se, mas apenas para desligar o ventilador - estava quase no máximo - e voltou à cama, onde a yorkshire esperava para se acomodar novamente em seus pés. O relógio devia estar marcando umas dez e meia ou menos, e ela dormiu - por puro capricho, pois lhe faltava o sono.
Acordou finalmente com uma bronca da mãe, dizendo já ser quase meio-dia - e de fato, eram 11:59. Alice se sentou e assim permaneceu por um tempo, notando no chão o chinelo novo, azul carbono. Foi ao banheiro e depois deitou-se novamente, dando atenção àquela bolinha de pêlos ainda sobre a cama. Decidiu-se então por levantar e ler, esperando pelo almoço - que não demorou a ficar pronto. No fim, comeu (ou tomou) três colheradas de leite condensado, subiu as escadas até o sofá e tornou a ler. Lá fora ainda chovia. Chovia e parava, depois chovia de novo. E trovejava.
Leu a tarde inteira quatorze capítulos do livro que Rodrigo lhe emprestara. Estava feliz que finalmente conseguira empenhar-se em ler algo, e não apenas perder o dia sem fazer absolutamente nada que lhe fosse útil. Alice leu, e só parou com uma súbita vontade de comer doce. Procurou por uma receita e foi-se para a cozinha, onde fez um bolo de chocolate com cobertura também de chocolate; ficou bom. Jantou com sua mãe e foi com ela assistir ao último episódio da novela.
Mais tarde, no computador, notou que: como passara a tarde lendo e depois entretera-se com bolo e novela, nem mesmo banho tomara naquele dia. Decidiu ir para o chuveiro - já passava da meia-noite. Depois pegou um bloco de folhas em branco, um lápis recém apontado, o livro de Rodrigo e o celular; deitou-se na cama - a porta do quarto fechada e o ventilador desligado em razão do frio daquela noite - e pôs-se a escrever seu dia, como se sentia, esperando que aquela chuva de verão não atravessasse outro amanhecer, e que viesse novamente o sol forte de sorriso amarelado e o céu azul com suas nuvens de algodão. Mas cansou, foi dormir. No relógio marcavam 02:07.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Madrugada.

00:51. Foi a última vez que ela olhou a hora antes de desligar o celular. Deus sabe que horas eram quando ela resolveu sentar-se na cama - depois de muito pensar e chorar - e ouviu alguns poucos latidos do cachorro do vizinho. Levantou-se, pegou sua agenda do ano que passou - que usava como pseudo-diário -, um lápis desapontado, sentou-se no chão e acendeu a luz do ventilador, como se fosse ajudá-la a enxergar realmente algo. Escreveu o mais forte que pôde e se aproximou ao máximo da luz alaranjada artificialmente fraca, sem se importar realmente se estava ou não prejudicando a própria visão.
Pensou ter ouvido sua mãe acordar. Desligou rapidamente a luz e levantou-se; mas ouviu-a roncar antes que tivesse tempo de entrar no banheiro, fechar a porta e acender a luz do espelho na parede - de fato bem melhor que a do ventilador. Sentou-se sobre a tampa do sanitário - o da descarga quebrada -, apoiou a agenda em sua perna direita e continuou a escrever. Já estava na metade da segunda pequena folha, com sua letra bem maior que a de costume.
Não sabia exatamente o que sentia; raiva com saudade, frustração, tristeza... Nem parecia a garota tão sorridente e feliz de dois dias antes. Quem dera ela pudesse ser agora aquela pirata e furtá-lo para si. Mas seu braço já começara a querer parar, e ela sentia calor no banheiro completamente fechado. Parou. Fechou a agenda, saiu do banheiro, colocou seus dois objetos acompanhantes - lápis e agenda - no lugar onde os pegara, deitou-se, olhou para o tempo que não sabia qual era, pensou. Sabe-se lá a que horas ela finalmente adormeceu. Também de hora alguma Alice queria saber; só a de vê-lo novamente.

Pausa para ouvir.

para quem quer se soltar, invento o cais
invento mais que a solidão me dá
invento lua nova a clarear
invento o amor
e sei a dor de me lançar

eu queria ser feliz
invento o mar
invento em mim o sonhador

para quem quer me seguir, eu quero mais
tenho o caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar

Cais - Elis

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pirata.

Em momentos de desencontros 'internetais' como este, e ainda em meio às suas dores mensais, Alice tinha vontade de cercá-lo e furtar-lhe o coração. Levar consigo o que, nele, ela via de mais precioso: o ser que palpitava descompassadamente verde no peito do azulado rapaz. Não por raiva; pilharia por saudade. Ah!, e como ela desejava fazê-lo já; e como deseja! A pirada pirata do amor!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Vestido.

No primeiro dia de mais um entre os tantos anos em sua vida, o vestido que usara há dois dias ainda tinha o perfume do seu adorado rapaz. Queria ela que a fragrância continuasse intacta tal qual suas lembranças, tecidas com fios de saudade. E ainda assim, até que o dia findado fosse, ela sequer tiraria o vestido. Alice, teimosa, não tiraria.