domingo, 5 de setembro de 2021
Pausa para ouvir #12
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
Peso
Hoje eu lembrei do que era bom. Falar em inglês do nada e se entender, imitar o espanhol daquela série que a gente assistia, dormir quentinha embaixo do cobertor porque tinha seu corpo perto do meu. Comprar mini coxinhas da padaria, na volta do trabalho, pra gente comer assistindo alguma coisa na sexta à noite. Assistir terror e depois ir juntos fazer xixi no meio da noite porque ficamos impressionados sem motivo. Fazer capuccino gelado, tirar um tempo pra ver as fotos que cada um tirou do mato e das viagens. Os planos de viagens que não executamos. Ser seu GPS sempre que pegávamos um carro, e cantar juntos aquela playlist que eu montei pra você com um monte de músicas que eu queria te apresentar (se nunca percebeu: era um jeito de dizer que te amava). Aliás, você ainda ouve essa playlist? Ela ainda existe? No fundo, eu queria que você lembrasse de mim toda vez que a ouvisse, e que sentisse remorso. Eu sinto, às vezes, mas depende da música que toca. Acho que eu sempre tive medo de perder o que a gente tinha de bom. Medo da solidão. Mas eu me sentia sozinha mesmo ao seu lado. Tudo que eu fazia era sempre era uma tentativa de te alcançar quando você só estava cada vez mais longe. Doeu e ainda dói lembrar. Que você preferiu esperar que eu estivesse tão machucada para finalmente me afastar. Que você preferia que eu tivesse permanecido presa ao vazio do sentimento que você um dia disse ter por mim.
Hoje eu lembrei do que era bom. E eu ainda tenho raiva que nem essas memórias eu posso levar com leveza. Você pesa demais na minha malinha. Ainda.
quarta-feira, 10 de março de 2021
No último sábado, minha única avó ainda viva foi admitida numa UPA com suspeita - quase certeza - de covid, direto na máscara de oxigênio. No domingo o quadro dela piorou e decidiram intubá-la. Na segunda-feira o teste voltou positivo, e a essa altura, ela já estava na fila da UTI (não tem leito sobrando, obviamente). Cada dia com notícias não animadoras de piora no quadro já grave, todos já se preparando, aguardando.
Hoje eu cheguei em casa do trabalho, entrei no banho e, sem esforço, pensei nela. Sem pensar muito, abri a boca e saiu: "vó, sei que a senhora é teimosa, mas o que for melhor agora, pode escolher que eu apoio, seja ficar ou ir, to com você, tá?". Algumas horas depois chegou mensagem: "oi filha, a vózinha se foi pro céu".
Não sei bem quais palavras usar num momento assim. Pensei "como é que vou confortar meu pai?". Me demorei um tempo, pensando. Só queria ir lá dar um abraço. Liguei pra ele, falei o que pude. Entre vozes fanhas e narizes fungando, nos abraçamos à distância. Eu não sou religiosa, nem acredito em céu e essas coisas, mas ela acreditava, então só posso esperar que, se ela estiver realmente em algum lugar, é um lugar melhor. Melhor do que lutando pela vida - já muito vivida - fragilizada e sozinha numa cama de hospital. As circunstâncias da sua partida machucam. (in)Justo quando não podemos encontrar a família e abraçar uns aos outros.
Dona Eroni ia fazer 82 anos dia 21 de março, três dias depois dos meus 29. Sempre muito teimosa, ariana braba que é. Não era das pessoas mais fáceis de lidar, e também nunca fomos muito próximas (pela geografia e pelos caminhos distintos e tortuosos da vida). Sempre que batia o olho em mim, fazia questão de enfatizar, toda orgulhosa, que eu tenho o narizinho dos Boeira. Eu ria desse orgulho bobo - mas acho que no fundo eu sentia o mesmo.
Agora tu foi simbora, vó, pra um lugar melhor. Te levo comigo nos meus cabelos, que também estão ficando prateados, e na boquinha "emburrada" quando séria. Manda um beijo no vô Valdemar.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Pausa para ouvir #11
my only hope is to let life stretch out before me
and break me on this lonely road
i'm made of many things, but i'm not what you are made of
but i swear that these scars are fine
only you could've hurt me in this perfect way tonight
i might be blind but you've told me the difference
between mistakes and what you just meant for me
don't say you ever cared
my darkest friend was
turning old in the air
and now, you have no weapons
you can try to get close to those i love
do you really think they don't know what you're made of
but i swear that these scars are fine
only you could've hurt me in this perfect way tonight
i might be blind but you've told me the difference
between mistakes and what you just meant for me
don't say you ever cared
my darkest friend